Quantas vezes já sentiste que “ninguém te ouve”? Talvez tenhas pensado isso em relação ao teu chefe ou ao teu parceiro: “Sinto que ninguém me escuta”, e isso te tenha gerado frustração. Mas o que se passa na realidade? A sensação de não ser escutada não tem a ver com os outros, mas sim com a forma como tu percebes as coisas, e essa perceção tem geralmente por base uma perceção que tiveste na tua infância. Neste artigo, vamos explorar como a sensação de não ser ouvida está ligada a experiências da infância e como podemos olhar para isso de forma diferente.
O que é a Criança Interior?
Antes de mergulharmos no tema de “não ser escutada”, é importante entender o que significa a expressão criança interior. Ao longo deste artigo, vou referir-me a esse termo, e é fundamental saber que a criança interior representa a parte de nós que guarda as memórias, as emoções e as percepções da nossa infância. Mesmo que já sejamos adultos, todos temos dentro de nós essa criança que, de certa forma, ainda reage e sente como na infância. As feridas emocionais não trabalhadas, as necessidades não satisfeitasou as percepções distorcidas da nossa infância continuam a influenciar a forma como lidamos com os desafios na vida adulta. Muitas vezes, as dificuldades que experienciamos hoje, como a sensação de não sermos ouvidos ou valorizados, estão diretamente ligadas a experiências passadas. Este conceito será o fio condutor para entendermos de onde vêm essas sensações e como podemos curá-las.
1. A Percepção de Não Ser Ouvida no Trabalho: Um Exemplo do Dia a Dia
Imagina que estás numa reunião de trabalho e, sempre que tentas expressar uma ideia, sentes que a tua voz é abafada. Os teus colegas continuam a conversar, e o teu chefe parece não perceber a importância do que estás a dizer. De repente, surge em ti a sensação de frustração: “Nunca me ouvem!”
Agora, imagina que a sensação de não ser ouvida não é sobre os outros, mas sobre ti. O que está a acontecer aqui pode ser um reflexo de uma experiência da tua infância. Talvez, quando eras criança, não te sentiste ouvida ou sentiste que os teus sentimentos foram constantemente ignorados. Essa sensação de invisibilidade na infância pode criar um padrão emocional que, mais tarde, se reflete nas tuas relações profissionais.
2. A Relação Entre a Criança Interior e a Sensação de Não Ser Escutada
Quando éramos crianças, as nossas necessidades emocionais e as nossas vozes eram, por vezes, ignoradas ou minimizadas por adultos ao nosso redor. Talvez, em algum momento, ao pedir atenção ou expressar um sentimento, o adulto da nossa vida não nos ouviu da forma como precisávamos. Esta experiência pode criar uma dor emocional inconsciente, que se manifesta na vida adulta como a sensação de que os outros não nos escutam.
Imagina que, ao cresceres, internalizaste a ideia de que as tuas opiniões e sentimentos não são valorizados. Quando isso se reflete em situações no trabalho ou em casa, podes sentir uma sensação de impotência e de não ser ouvido. O que acontece é que, na realidade, os outros podem até ouvir, mas a tua percepção distorce a realidade, fazendo-te acreditar que não estás a ser escutado.
3. Exemplo no Relacionamento: O Marido ou a Parceira Não Me Ouve
Outro exemplo comum é no relacionamento. Imagina que pedes atenção ao teu marido, mas ele parece estar mais focado no seu telemóvel ou em outra tarefa. Tu sentes-te frustrada, dizendo: “Tu nunca me ouves!” Mas, será que ele realmente não te ouve ou será que a tua criança interior está a projetar uma necessidade não satisfeita na infância?
Na infância, é possível que tenhas tido momentos em que os teus pais ou cuidadores estavam ausentes emocionalmente, deixando-te sentir que, por mais que pedisses, não recebias a atenção devida. Hoje, quando essa sensação de “não ser escutada” surge no teu relacionamento, é a criança interior que está a reagir ao que te feriu no passado. A sensação de “não ser ouvido” pode ser uma dor emocional que tu estás a vivenciar e que não tem necessariamente a ver com a pessoa com quem estás a interagir no presente.
4. Como Reverter esta Percepção: Olhar para a Criança Interior
A chave para curar essa dor emocional está em compreender que a sensação de não ser escutada não é necessariamente sobre os outros, mas sobre nós mesmos. A criança interior representa a percepção do passado, e essas percepções influenciam as nossas reações no presente. Quando conseguimos olhar para essas feridas emocionais com compaixão, podemos começar a perceber que a nossa dor não é uma acusação aos outros, mas um convite para ver e compreender algo que precisa de ser visto e libertado dentro de nós.
Exemplo Prático: Imagina que, ao te sentires ignorada, decides dar um passo atrás e refletir sobre a origem dessa dor. Ao fazer isso, percebes que, na infância, tu precisaste de mais atenção emocional do que recebeste. A partir daí, em vez de reagires com frustração com o teu chefe ou o teu parceiro, começas a comunicar de forma mais assertiva, a pedir de forma clara o que precisas, e a perceber que, muitas vezes, a dor de não ser ouvido é um reflexo de necessidades não satisfeita no passado.
5. Dar outro significado e transformar a Dor da Criança Interior: Como Pode Ajudar a Nossa Vida Atual
Quando tomamos consciência de que a dor de “não ser escutado/a” tem raízes mais profundas, na maioria das vezes, podemos trabalhar essa dor de forma eficaz com terapias como a Hipnoterapia. A hipnoterapia é uma abordagem terapêutica que trabalha diretamente com o inconsciente, ajudando a ressignificar experiências passadas e a curar feridas emocionais que, muitas vezes, nem temos consciência que ainda nos afetam.
Exemplo Prático com Hipnoterapia: Superando o Não Ser Ouvido Imagina que, na tua infância, pediste ajuda várias vezes, mas os adultos ao teu redor estavam ocupados, ou simplesmente não te deram a atenção que precisavas. Esse sentimento de ser ignorado ou não ouvido, embora tenha acontecido há muitos anos, ainda se reflete nas tuas relações hoje, especialmente no trabalho ou nas relações pessoais.
Durante uma sessão de hipnoterapia, o terapeuta pode guiar-te a um estado de relaxamento profundo, onde a tua mente se torna mais receptiva a acessar memórias e emoções guardadas no inconsciente. Neste estado, podemos voltar àquela situação da infância, onde a criança não se sentiu ouvida, e, a partir daí, a hipnoterapia permite-te ressignificar essa experiência.
Por exemplo, no processo de visualização, podes ser convidada a imaginar o momento em que sentiste que não eras ouvida. Com a orientação do hipnoterapeuta, vais visualizar a situação de uma forma diferente. Podes ver, por exemplo, que as pessoas ao teu redor estavam realmente ocupadas com as suas próprias preocupações, e que a falta de atenção não foi uma escolha pessoal contra ti, mas sim uma situação circunstancial. Em vez de sentir abandono ou desvalorização, essa visualização pode ajudá-la a ver que o problema não estava em ti ou no teu valor, mas em fatores externos que estavam fora do teu controlo.
Além disso, a hipnoterapia pode permitir que resgates a tua criança interior e, com isso, consigas dialogar com essa criança que ainda guarda a dor do não ser ouvido. Esta conversa interna pode ajudar a fortalecer a tua autoestima e a tua confiança, permitindo que, no presente, te sintas mais segura ao expressar as tuas opiniões e sentimentos.
Exemplo de Mudança no Presente
Após essa ressignificação na hipnoterapia, quando voltares ao teu cotidiano, a sensação de não ser escutada no trabalho ou em casa poderá começar a desaparecer ou a ser vista de uma forma diferente. Podes perceber que as pessoas ao teu redor estão, de facto, a ouvir-te, mas a tua percepção – que estava ligada à criança interior ferida – estava distorcendo essa realidade.
A hipnoterapia trabalha para transformar as percepções limitantes, de modo que, no futuro, quando expressares uma ideia ou um sentimento, vais sentir-te mais confiante, sabendo que a tua voz tem valor. O que antes era uma reação emocional desproporcional ao contexto (sentir-te ignorada, por exemplo), agora poderá ser visto como uma simples interação, onde tu e os outros comunicam de forma aberta e assertiva.

